1 dia em Liège

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SILVINADIAS

A história do convite, do planeamento da viagem e do nosso 1 dia em Liège. Uma história de descoberta, aventura e companheirismo que começou assim…

Sexta-feira ao final da tarde, o “J” chegou do trabalho e ainda a despir o casaco e a descalçar os  seus sapatos disse com uma voz bem decidida e entusiasmada: “Quero levar-te a conhecer Liège no próximo Domingo. Alinhas?”. Saltei para os seus braços e num abraço apertado disse-lhe que sim! Apesar de vivermos nos Países Baixos nunca antes tínhamos ido aos países vizinhos, Bélgica e Alemanha (vistitámos este último pela primeira vez na altura do Natal), e já há muito falávamos de colocar as chaves na ignição do carro e irmos passar um dia fora. Domingo seria o dia de riscarmos a Bélgica da lista e de passarmos 1 dia em Liège.

A tarde de sábado foi passada a planear a nossa viagem a dois por terras belgas. Corri as ruas de Liège vezes sem conta através do ecrã de computador, explorei sites e blogs sobre a cidade e apontei todos os lugares que prometiam valer a pena o nosso tempo num bloco de notas. Planear a viagem foi fácil, pregar olho nessa noite é que foi difícil.

Eram nove horas da manhã quando o despertador tocou mas eu já revia o itinerário na minha cabeça desde as sete. Vestimo-nos, peguei na minha bolsa e nos meus apontamentos, ligámos o GPS do carro e partimos na nossa aventura de um dia. Chegámos a Liège trinta minutos após a nossa saída de Maastricht, cidade onde vivemos.

Numa das minhas pesquisas do dia anterior encontrei a app Seety que nos facilitou (e muito!) a vida para estacionarmos o carro. Apesar de aos Domingos ser dia de mercado na cidade, não foi nada difícil arranjar um lugar grátis e perto do centro da cidade (Rue de Saint-Laurent) para estacionar.

Place Saint-Lambert era o primeiro ponto no itinerário, não fosse este lugar ser caracterizado como a praça central da cidade. A nossa primeira memória fotográfica (e que vamos guardar para nós) foi no Archéoforum com o grandioso Palais des Princes-Évêques e os pilares de metais que marcam as paredes daquela que em tempos foi uma catedral dedicada a Virgin e a Saint-Lambert.

Sentimos o cheiro de pão acabado de cozer assim que um cliente abriu a porta e saiu de um pequeno estabelecimento (Tea Room). Entre “Bonjour” e “O que vais querer?” olhámos para a montra. Não tinha muitos bolos, mas mesmo assim pedimos um cappuccino e um pain au chocolat para cada um. Sem dúvida que foi um dos melhores paniques de chocolate que comi na vida… Aih aquele chocolate belga!

Já com a barriga mais composta e ainda a lamber os cantos da boca, voltámos a caminhar em direcção ao Musée des Beux-Arts Liège (BAL) e ao mercado junto do rio Meuse. Percorremos o mercado de uma ponta à outra, espreitando de vez em quando para as bancas dos comerciantes mas, acima de tudo, contemplávamos a agitação da cidade que contrastava com a calmaria do rio.

Le Grand Curtius era o próximo ponto a visitar. Este museu de arqueologia e artes decorativas nada passa despercebido no meio de uma cidade que se cobre maioritariamente em tons de cinza e castanho. A entrada era gratuita (o preço para um adulto são 9€, mas no primeiro Domingo de cada mês não se paga bilhete de entrada) e podíamos visitar as diferentes temáticas, edifícios e jardins do museu. Perdemos a noção do tempo na área de arqueologia e da história de Liège. Por outro lado, a área decorativa e das armas foi vista quase a correr porque estávamos a ficar atrás do horário que tinha estipualdo.

Atrás do Grand Curtius, encontrámos o Collegiate Church of Saint-Bartholomew, um outro edifício que não passa despercebido pelas suas cores bem chamativas. Não entrámos apesar da curiosidade ser alguma mas tivemos oportunidade de ouvir o sino badalar uma música e contar as horas enquanto tirávamos uma fotografia juntos.

Já que estávamos ali perto e a caminho daquele que seria um dos pontos mais altos da nossa viagem (literalmente!), decidi incorporar, à última da hora, no nosso roteiro de 1 dia em Liège, uma paragem no Cour Saint-Antoine e o Hors-Château.

No Cour Saint-Antoine (conjunto de apartamentos e casas construídos pelo arquitecto Charles Vandenhove) senti que aquele espaço era-me familiar, talvez o tenha visto nalgum filme ou jornal. De seguida, num passo bastante acelarado, passámos pelo Hors-Châeau (significa “fora do castelo” em francês), pela Église Notre-Dame de l’Immaculée Conception e pelo Convent des Frères Dominicains porque o excitamento do que eu sabia que estava para vir explodia dentro de mim.

A hora de almoço há muito tinha passado, mas ambos sabíamos que seria mais difícil subir uma das 10 escadarias mais memoráveis do mundo (que até então apenas em fotografias tínhamos visto) de barriga cheia.

“Bem-vindo à Montagne de Bueren”, disse-lhe num tom de entusiasmo e euforia que nem eu mesma ouvia há muito. Vimos o espanto e o ar de impressionados das nossas caras reflectidos nos rostos daqueles que por lá passavam também pela primeira vez. Eram mais de trezentos degraus com uma inclinação de 30% com casas de ambos os lados da escadaria (perguntei-me várias vezes quem é que se atreveria a viver ali). Assim que chegámos ao topo, pedimos a um jovem casal para registar aquele momento: o brilho na nossa pele, o ar de cansaço, dois sorrisos bem grandes e uma vista incrível sobre a cidade de Liège. Foi ali, no topo da “Montagne”, que me apaixonei pela cidade!

Apesar do cansaço, dos pés a latejar e da barriga a roncar, insisti que fôssemos até à Citadelle de Liège antes de descermos até ao centro da cidade para almoçarmos. Estávamos tão perto que o “J” lá acabou por alinhar. Se a paisagem do topo da escadaria era impressionante a da Citadelle era ainda mais. Sentados num banco de madeira à sombra, contemplamos a cidade e recuperámos o fôlego que todos os degraus nos tiraram.

Descemos num passo apressado as ruelas de chão irregular até chegarmos novamente ao nosso ponto de partida (Place Saint-Lambert). Àquela hora já todos se sentavam nas esplanadas para tomarem um cocktail e meterem a conversa em dia. Sem grandes escolhas, por ser tarde, decidimos entrar no McDonald’s e comemos um hambúrguer. Enquanto ele saboreava o seu sunday, eu revi o percurso que tinha planeado para a tarde sabendo que já estávamos atrasados e que era quase certo que não iríamos visitar tudo.

Bolsa às costas, barrigas cheias e pés a mexer outra vez! A primeira paragem da tarde foi na L’Opéra Royal de Wallonie. De seguida, seguimos caminho até ao The Forum, ao Cinemá Churcill, que contém uma fachada lindíssima com vitrais coloridos e motivos florais no cimento, à Passage Lemonnier, à Fountain of the Virgin, chegando, por fim, à Cathédrale Saint-Paul.

Sem hesitar, encaminhámo-nos para a grande entrada da catedral e o silêncio apoderou-se de nós naquele mesmo instante. Os nossos olhos fixaram o teto por alguns minutos… Estupefactos com aquela construção do século X, percorremos de uma ponta a outra a catedral cada um embrenhado nos seus próprios pensamentos. Assim que saímos por uma porta traseira, as nossas vozes voltaram a cruzar-se com comentários sobre o que tínhamos acabado de ver. Estávamos boqueabertos!

O penúltimo ponto a visitar foi a Église Sain-Jacques, que fica relativamente perto da Catedral Saint-Paul. Tal como acontecera na catedral, o silêncio instalou-se assim que entrámos na porta, seguido de um cheiro a flores e velas queimadas. A sumptuosidade do seu exterior gótico em tons de cinza é contrastado no interior com vitrais coloridos, estátuas brancas ao longo da corredor central e um teto cheio de detalhes com o dourado a predominar.

A caminho das famosas waffles de Liège passamos pela Université de Liège, o Collégiale Saint-Denise e por uma pequena loja de produtos portugueses (Épicerie Alentejo) na Rue de la Goffe. Como portugueses e emigrantes que somos (e a saudade de casa vive connosco diariamente), espreitámos para ver se estava aberto, mas assim não aconteceu.

Une Gaufrette Saperlipopette era o destino final do meu roteiro de 1 dia em Liège. Após tanto ler em blogs e no TripAdvisor sobre as famosas waffles, não resisti a entrar e comprar uma com sabor a canela. O espaço era pequeno, as pessoas faziam fila mas o cheirinho maravilhoso a waffles sentia-se logo no início da rua. Deliciei-me!

Estávamos exaustos! Tínhamos andado mais de 15 km num espaço de 7 horas. Por isso, antes de nos fazermos à estrada, decidmos fazer uma pausa no Charlemagne Café para um refresco e, assim que o terminámos, aproveitámos para passar na loja de recordações do outro lado da rua para comprarmos um íman para a nossa coleção. Afinal de contas, era a primeira vez que ambos visitávamos uma cidade belga.

Meia hora depois chegámos a casa e dávamos por concluído o nosso 1 dia em Liège. Estafados e sem sentir o corpo, deitámo-nos na cama e fechamos os olhos por alguns minutos.

“Obrigada por este dia em Liège!”, foi a última coisa que lhe disse nesse Domingo.

Nota: Se estiverem a planear uma visita até à capital belga, consultem este artigo.

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